Pedro Nuno Santos: "Montenegro não tem a dimensão nem a estatura de Passos Coelho"

Pedro Nuno Santos: "Montenegro não tem a dimensão nem a estatura de Passos Coelho"

Em entrevista ao Política com Assinatura, da RTP Antena 1, o antigo líder do Partido Socialista (PS) acusa o Governo de "querer dar uma viragem política em Portugal". E avisa o primeiro-ministro que tentar disputar o eleitorado com o Chega "pode correr mal".

Andreia Brito com Natália Carvalho - RTP Antena 1 /

Imagem e edição vídeo: Pedro Chitas

"O Governo percebeu que usar a força para repor a ordem desviava debate político das questões socioeconómicas", acusa Pedro Nuno Santos. O socialista acusa Luís Montenegro de usar as cargas policiais sobre os manifestantes para desviar a atenção do aumento do custo de vida e da falta de habitação.

O antigo Secretário-Geral do Partido Socialista (PS) atira que "o Governo percebeu que uma das formas de dar uma viragem política em Portugal era poder usar a força para repor a ordem e ganhar o apoio popular e de certa forma desviar do debate político as questões socioeconómicas".

Dirigindo-se ao primeiro-ministro, Pedro Nuno Santos defende que "Luís Montenegro sabe o mesmo que qualquer um de nós", ou seja, "o Governo tem capacidade de racionalizar, de refletir, de concluir de que aquelas cargas policiais têm, não um efeito de dissuasão, de desmobilização, mas, antes pelo contrário, têm o efeito de mobilização e de até engrossar as manifestações".
"Obviamente que eu teria feito uma intervenção mais cedo", assume Pedro Nuno Santos quando comenta a atuação do Presidente da República perante as manifestações contra a habitação e as cargas policias sobre os manifestantes.

"Isso não quer dizer que a minha seja a correta", admite, mas repete que "teria feito uma intervenção mais cedo".

O socialista defende o desempenho de António José Seguro: "acho que o Presidente da República tem o perfil certo para o momento em que vivemos". "O Presidente da República tem de preservar os momentos em que intervém" e nesse sentido Pedro Nuno Santos elogia o comportamento de Seguro.

E caso fique a impressão de que com esta análise queira ir para Belém, Pedro Nuno Santos põe de parte qualquer desejo nesse sentido: "não faço aliás nenhuma intenção de ser (Presidente da República). Não tenho perfil. Não é uma função que me desperte nenhuma vontade", e acrescenta que "neste momento a minha intervenção política não passa por candidaturas a cargos".
Montenegro e Pinto Luz: "a não ser que andassem a carregar tijolos não fizeram nada pelas casas que apresentam como sendo suas"
Miguel Pinto Luz, o atual ministro da Habitação, é um dos alvos das declarações de Pedro Nuno Santos à Antena 1. "Fico surpreendido com a capacidade que ele tem de se apropriar de trabalho que a nada se deve a ele", critica dando como exemplo disso o Programa Público de Construção de Habitação.

"Nós (PS) desenhámo-lo, lançámo-lo, negociámo-lo com as autarquias", relembra e insiste em exemplos: "as 32 mil casas que ouvimos Pinto Luz e Montenegro dizer que entregaram... entregaram casas que estavam, todas elas, em obra quando eles chegaram ao poder".

"Eles (Montenegro e Pinto Luz) não fizeram nada. A não ser que andassem a carregar tijolos, não fizeram nada pelas casas que apresentam como sendo suas", ironiza.

Pedro Nuno acusa ainda o ministro da Habitação de mentir. "Pinto Luz diz que fez mais do que estava no Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). Também é falso. Porque no PRR estavam previstas 32 mil e 800 casas. Fizeram, na realidade, menos do que aquelas que estavam previstas no PRR. Aí também está a mentir", conclui.
Pedro Nuno Santos vai mais longe nas críticas ao primeiro-ministro e ao ministro da Habitação dizendo que ambos não tem a "dimensão" e "estatura" de Pedro Passos Coelho.

Para o afirmar, o socialista dá o exemplo do antigo primeiro-ministro social-democrata que quando inaugurou o Túnel do Marão, cujas obras arrancaram no Governo de José Sócrates, convidou o seu antecessor. "Pinto Luz e Montenegro não têm essa dimensão. Não têm a estatura que outros companheiros de partido tiveram", critica.
Penalizar a acumulação de casas: propõe Pedro Nuno Santos
Em entrevista à editora de Política da RTP Antena 1, o antigo ministro da Habitação assume dois erros que no seu Governo foram cometidos no que à habitação diz respeito. Desde logo a atribuição de benefícios fiscais para o arrendamento acessível, "não funcionou, foi um fracasso", admite. E o segundo erro, diz, foi que "houve medidas que não tomámos, ou tomámos muito tarde, de regulação da procura: alojamento local, dos residentes não habituais, dos vistos gold".

Dito isto, Pedro Nuno Santos avança com uma proposta que lhe parece ser uma solução eficaz e imediata para começar a resolver o problema da habitação, que, para si, não é um problema nacional, mas sim mundial.

O antigo responsável pela Habitação propõe taxar com um IMI mais elevado as casas de quem já tem duas habitações. Defende mesmo que "temos de usar a política fiscal para travar a acumulação e a circulação rápida de propriedade".
Montenegro disputar eleitorado com CH? "Pode correr-lhe mal"
No programa Política com Assinatura, Pedro Nuno Santos mostra-se muito crítico da estratégia política e eleitoral de Luís Montenegro.

"Montenegro está a cometer um erro" que é "está focado em disputar principalmente eleitorado com o Chega (CH) e não com o PS e isso pode correr-lhe mal".

"Ele (Montenegro) acha que a estratégia do ponto de vista eleitoral é disputar eleitorado com o CH, tentar segurar eleitorado que possa continuar a fugir para o CH", sublinha, enquanto reforça que o primeiro-ministro "está focado nisso provavelmente desde o início deste Governo, mas vai sair-lhe furado".
"Pode ser-nos cobrado mais à frente termos suportado um Governo que sairá mal da governação"
"Nunca permitiria, enquanto Secretário-Geral, que o PS desse confiança a um Governo que não a merecia", é assim que Pedro Nuno Santos arranca quando comenta a abstenção do PS em relação ao Orçamento do Estado para o próximo ano, permitindo com esse voto a viabilização do mesmo.

Depois defende que "um Governo destes não deve ter o suporte do PS", para mais à frente referir que "esse voto no Orçamento aquilo que dá é mais tempo, não só para o Governo tomar medidas contra a maioria do povo português, mas fazê-lo com o CH".
Sem nunca se referir diretamente a José Luís Carneiro, Pedro Nuno afirma que "torna-se difícil fazer esse distanciamento quando, ao fim de três anos, estamos a dar as condições para continuarem a governar". E conclui que "pode ser-nos cobrado mais à frente termos suportado um Governo que sairá mal da governação".
Nesta entrevista adianta que "rejeito qualquer forma de bloco central" e entende que, caso o PS ganhe as eleições com uma minoria, "deve governar da mesma forma que o PSD tem governado". 
JLC: "Não estou à espera atrás da porta que lhe corra mal"
Não concorda, mas não trai. É esta a ideia que o antigo líder do PS deixa ao atual.

Se por um lado assegura que "tenho um posicionamento político diferente e era hipócrita se tivesse a dizer que «eh pá, espetacular, é como eu gostaria de fazer». Não é verdade", por outro lado Pedro Nuno Santos garante que "não estou à espera atrás da porta que lhe corra mal. Isso poderão estar outros, eu não".

E admite mesmo que espera que José Luís Carneiro "tenha o melhor sucesso possível".
Nesta entrevista Pedro Nuno assegura por várias vezes que não está disponível para se candidatar a cargos, seja deputado, seja Secretário-Geral do PS.

E apesar de assumir que há espaço para a criação de um novo partido ao centro ou à esquerda no espetro partidário, quando questionado sobre se estaria disponível para sair do PS para esse novo partido responde "eu não estou aí".

Entrevista conduzida pela editora de Política da RTP Antena 1, Natália Carvalho. 
PUB